sexta-feira, 26 de abril de 2013

A primeira lembrança do meu pai rindo


Eu e meu pai nunca fomos muito próximos. Na verdade meu pai sempre foi meio distante de nós. Não que ele fosse ausente, mas sempre foi meio fechadão. Acho que herdei um pouco disso dele, sei lá. Meu pai sempre trabalhou muito, muito mesmo. Chegava em casa tarde da noite sujo de graxa e com uma cara típica de quem ralou o dia todo pra ganhar o dinheiro pra comida, e é claro, sempre que chegava em casa trazia muitas guloseimas nas sacolas. Bolos, pães, doces. Esperávamos meu pai chegar pra comer.

Mas as vezes eu paro pra pensar e vejo que meu pai nunca teve essa coisa de demostração de carinho, de abraçar, beijar e brincar com a gente e como eu e meus dois irmãos sempre convivemos com esse jeito dele, nunca sentimos falta. Era normal. Ele nunca foi ausente, sempre muito quieto, chegava trazendo a comida e todas aquelas coisas gostosas, comia, depois ia pro sofá assistir o jornal e fumar o cigarro de sempre. 

Um dia, em um fim de semana qualquer ele me levou em um parque de diversões tentando criar um daqueles programas de pai e filho ou então foi por que eu enchi o saco dele, não sei. Fomos a um parque próximo de casa que pra mim parecia estar em outra cidade. Minha noção de tempo e espaço naqueles dias era muito diferente da de hoje, acho que pra toda criança é. Tudo parece tão longe...

Quando chegamos lá, já era noite. Eu brinquei em alguns brinquedos enquanto meu pai olhava fixamente com um cigarro na mão. Fui no Carrinho de bate bate, roda gigante e vários outros. Foi então que pedi ao meu pai que fosse comigo em uma pequena montanha russa, precariamente montada no parque. Ele se recusou num primeiro momento, mas devido a minha insistência, ele cedeu.

Vi o pavor nos olhos do meu pai. Ele nunca tinha enfrentado esse tipo de desafio, mas foi comigo. Eu, alegre e sorridente e meu pai meio sério, meio feliz, meio se cagando de medo daquela porra quebrar. Quando o carrinho começou a se mexer eu lembro que perguntei "Ta com medo Pai?", mas não me lembro da resposta. Lembro apenas dos segundos depois.

Eu nunca vi meu pai daquela forma, nem antes e nem depois desse dia. Meu pai ria como se fosse uma criança no natal ganhando o presente que estava esperando o ano inteiro. Era gostoso ver aquela cena. Ver meu pai deixando a felicidade sair e se permitir brincar depois de muito tempo. A infância dele foi precária, assim como a da minha mãe e assim como de muitas pessoas com a idade dele. Ele não tinha esse tipo de privilégio, ele não tinha esse tipo de tempo pra ele. Meu pai sempre precisou trabalhar desde muito cedo e perdeu muita coisa da infância, então ver aquele sorriso meio torto, meio sem jeito é uma das coisas que mais me marcou na infância.

Desde então eu não vi meu pai rindo com toda a alegria de uma criança grande, mas continuo tentando achar uma maneira de fazer isso voltar. Quem sabe um dia...

4 comentários:

  1. Só quando eu tive um filho que eu descobri como é difícil ser pai. Eu tenho muitas tretas com o meu, e por isso tento ser um bom pai pro meu filho. Teu texto me fez pensar muito.

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    1. Que bom que você gostou. Ser pai deve ser foda, mas desde que você de carinho, atenção e se dedique a ele tudo fica bem.

      Um abraço.

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